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27/05/08

Epílogo (ou apocalipsis?).

foto by Mila Petrillo


os meus olhos partidos de boneca, choram todos os filhos que esqueceram a palavra mãe.


os meus olhos de mulher envelhecida, fixam o palco. - enquanto a barca não vem.

25/05/08

aos amigos, aos inimigos e até aos outros.

smoking-cigarretes by come2beautiful

enquanto a barca não vem, chega na mesma o tempo de ir embora. por não o saber dizer tão bem, deixo-lhes o que sinto nesta hora em verso escrito por quem foi alguém e, no entanto, também ninguém chora. ah, mas ele sabia isso bem. antes, muito antes de se ir barra fora!


do Opiário de Álvaro de Campos - fragmento

...............................................................

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co'os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a ...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Pra cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh'alma!
___________________


ciao! :)

27/04/08

Enquanto a Barca não vem...

photo by Eric Hamilton



caiu ____ a última gota

não há espanto nem revolta

caiu ____ no dorso do tempo

com o silêncio como escolta



nada ____ consigo o prodígio

de ter o cérebro vazio

ter mais ____ nada ____ para dizer

aspiração ____ absoluto

descanso mais que merecido


uma palavra ao ouvido

de quem passar por aqui


- Enquanto a Barca não vem

façam Amor ___ sejam Paz

incomodem toda a gente

destronem a hipocrizia

derramem tanta ____ alegria

como dor ____ no rio corrente

esse ____ o que vai dar ao mar.



única urgência

- a mesma fúria ____ boa ____ Adolescente!

no amar ____ e no lutar.





Madalena Pestana

11/04/08

intelecto líquido

foto de madalena pestana


escrevo-te na água. escrevo com os olhos. com água

na água

escrevo meu amigo. não escrevo. dissolvo

eu não sei escrever. falo. com os olhos

pousados no chão. na água. nas pedras

caíram-me pedras-lágrima. dos olhos


escrevo-te na água. no brilho. no chão

que piso a seguir.

molho os pés na escrita que sempre me falha

encharcada em letras _____ água dos meus olhos

eu. intelecto líquido

eu. muda. eu. sentir de escrita vazia. faço-me poema

escrevo-te na água


escrevo-me para ti. na água. na água.


lágrima. palavra. morro-me. no chão.



04/04/08

saciar ______ nada

image by Angelicatas



fui à rua



bebi vento




engoli toda a poeira que circulava no ar




tive esperança





(num momento patético e desolado)



de que o rodopio trouxesse um aroma




breve ______ a ti





nada ______ pó ______ ______ sem mais nada




a não ser esta imparada saudade imensa



de ti ______ em mim




(saudade da fantasia. do nada que há a lembrar...)





tenho a ânsia ______ o intento ______ vem no vento ______


em vez do vento




tens ______ um corpo




a saciar.

26/03/08

... nas tuas costas

image by Dr. Feng Jiang


aos olhos da imaginação _________ dessa _________ a sobrevivente

desesperada amiga que sobrou _________ à normal _________ debandada

das aves sem asas e de arribação _________ velozes _________ que enxameiam

o viver descuidado até a sorte _________ virar _________ nos esquecer o todo



a esse olhar moldo uma montanha _________ de vértebras nuas _________ e tacteio-a

tacteio-te com dedos de pianista _________ experiente _________ componho (te)

melodias vibrantes _________ vendavais _________ arrepios de pele e carne viva



imaginado o corpo sobra a paz _________ pausa. cansaço _________ de quem sentiu

o entranhado desejo satisfeito _________ à tua revelia _________ e renovado

ao ver nas tuas costas a montanha _________ solo erguido _________ vertebrada

onde o meu rio feito de camuflado amor


já corre e se despenha


24/03/08

tu berço

micul mare by iacobmishu


o livro de bolso que é a minha vida

bem que cabe na tua

e é sem saber que lês

a minha essência.



___________



tão poucos se deram conta de que sou


também palavra que quer uma terra

onde cair e ser fecunda


palavra alma em primavera aberta



____________


no colo do livro que és e eu não li mais que um terço


embalo a vida. vivo sonhos



de amor a ritmo de berço.


22/03/08

sopro vida

Of Knives and Paper by kevissimo


sopra meu vento ---- amor ---- ao meu ouvido


cerca-me o pescoço duma ---- serpente ---- amante


sibilante


que me faça tremer e ---- oscilar ---- perder no



espaço


que medeia entre o ---- odor ---- de ti no meu


pescoço

e o beijo que desejo



e tu ---- inventarás ---- num sopro criativo



sopra. amor. a palavra. ao meu ouvido


e em ---- enrolo ---- de cobra que volteia


deixa depois de ---- verdadeiro ---- amor



a minha boca cheia.



21/03/08

o sonho

image by Scraps


ontem tinha pensado escrever sobre amor. o meu amor possível. inventado.

mas a cabeça doía mais que o pensamento e fui dormir. trazia na memória um olhar que não parecera ver-me. nem sequer sabia que o trazia. as coisas que se carregam para casa sem saber!

pior, pior foi o sonho depois.

- no emprego, alguém com poder para isso e muito mais, avisava-me, olhando-me como quem não me vê, que já não precisavam de mim. assim a frio e pronto. rápido como os sonhos são. segurei uma tampa de caixa de papelão. coloquei por cima as minhas plantas e saí a informar não me lembro quem. ou lembrarei?

voltei ao local de trabalho que por vinte anos fora o meu. ia saber de mais. do como. do porquê. mas a secretária já fora trocada. esperavam ainda quem a ia ocupar e... não me viam. ninguém sequer olhava na minha direcção.-

nunca me senti tão número como neste sonho. um número apagado. um número para engrossar, e ainda assim pouco, uma futura estatística qualquer.

a minha cadela foi acordar-me. entendi que era sonho. era sonho mas até quando o era?

assim deixei o texto de amor inventado e parti na direcção da barca que o sonho parece anunciar.

não a avisto mas sei que não demora. é mais de indiderença que de doença que se morre. sei o que digo. antes o não soubesse.

não tenho pena de partir. não gosto é de esperar.

hoje não vejo telejornais. falam de desemprego. não sei é como apagar da memória aquele olhar.

17/03/08

devia sentir-velha

River meets the Sea by Cara Weston


não devia ser assim. já não devia.

devia ser eu uma calma lagoa

onde se espelha uma árvore antes de secar

tinha de ser mais velha no sentir

de ter matado as células de vibrar

para ao passar por ti ou ao ouvir

a voz que me sacode como vime

não estremecer em convulsões de rio

numa ânsia sem nome de se unir ao mar



devia mas não quero ou não sei ou não posso

e o meu corpo, se dependesse dele

cairia no teu como pedra num poço

numa entrega bem para lá da pele!