03/05/08

leitura da noite

image by didierpagan



Se te queres matar


Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...

Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...

E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;

Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...




Álvaro de Campos

9 comentários:

  1. Nem jazigo nem cova, por favor.
    Não estarei apresentável para receber visitas. E nessa altura tenciono dispensá-las Todas.

    O crematório, sim e o pó liberto. Enfim!

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  2. Madalena


    estamos em total concordância.
    odeio a idéia de ser enterrada.
    quero um enterro Vinking...quero meu corpo queimando em alto-mar, esse sim minha morada escolhida, numa jangada com feixos de árvores secas - para queimar rápido - e assim voltar ao lugar de onde vim......não foi o pó e sim a água que me deu vida. é a ela que quero (re)tornar.

    beijos com carinho

    della-porther

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  3. depois de alguns dias de ausência
    intensa mente vividos

    o regresso tarda

    mas volto

    devagar

    para vos respirar

    em pleno

    para vos guardar

    em todo


    tinha saudade
    de vós

    apesar dos outros rios
    igual mente

    belos


    .
    um beijo

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  4. Este acabou, enquanto escrita própria, Maria Gabriela.

    Posso voltar cá, eventualmente, para alguns desabafos já que a Barca demora.

    Mas o que me levou a escrever partiu antes da Barca.

    Pressas do psiquismo.

    Obrigada a todos por passarem ainda por cá. E Sejam Felizes: :)

    Bjs

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  5. *
    que despedida !!!
    alem de pessoal é pessoana,
    hehehe,
    ,
    quando chegar a barca, aviso-te,
    ,
    vou ... a nado,
    sem velas, sem remos, sem barca,
    ,
    *

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  6. Bom entardecer, Madalena!
    Beijo.

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  7. *
    a barca ainda não se avista,
    abarcou á ASAE,
    "essequé" dos remos,
    já ninguem rema,
    nem a favor . . . da maré,
    ,
    conchinhas
    ,
    *

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