08/06/08

Barca à vista!

painting by Nancy Poucher


com uma grande paz eu sonho já até a cor da barca


é da cor dos meus rios interiores e do meu mar


azul.





FIM

27/05/08

Epílogo (ou apocalipsis?).

foto by Mila Petrillo


os meus olhos partidos de boneca, choram todos os filhos que esqueceram a palavra mãe.


os meus olhos de mulher envelhecida, fixam o palco. - enquanto a barca não vem.

25/05/08

aos amigos, aos inimigos e até aos outros.

smoking-cigarretes by come2beautiful

enquanto a barca não vem, chega na mesma o tempo de ir embora. por não o saber dizer tão bem, deixo-lhes o que sinto nesta hora em verso escrito por quem foi alguém e, no entanto, também ninguém chora. ah, mas ele sabia isso bem. antes, muito antes de se ir barra fora!


do Opiário de Álvaro de Campos - fragmento

...............................................................

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co'os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a ...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Pra cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh'alma!
___________________


ciao! :)

20/05/08

Uma flor de agradecimento

a Blessing of the water

foto de madalena pestana

a todos os amigos que pensaram, mandaram mails e visitaram este espaço, durante esta fase de olhar baço.

17/05/08

Sexy Sócrates y su cigarrillo

photo by Muscovite

não falo dos cigarros e explicações de Sócrates - o puritano, porque...não me ocorre nada (sempre que penso nele).


16/05/08

Vasco Pulido VALENTE

Vasco Pulido Valente _ Autor desconhecido

Vasco, meu conhecido, não acredito que amigo, os meus parabéns pela tua iniludível inteligência, tanto a avaliar o acordo ortográfico como a desmontar as ridículas desculpas de Sócrates por ter fumado um cigarro.

Vasco, porra, em que catequese andaram eles????!!!

Parabéns, meu escorpião de uma figa! :D

14/05/08

Sócrates-Simplex. cegueira e códigos de conduta

foto imagine

meu caro Senhor Sócrates, é com grande esforço que alinhavo estas linhas, aqui na Junta de Freguesia, porque o dinheiro para a Net já o Senhor me comeu todo em impostos e, estou tão cega como a menina da imagem acima, ainda com a agravante de não ter a idade dela e ter de trabalhar até poder, por ordem sua, para tapar o buraco do défice que meia dúzia de cromos criaram para o País total. porque à minha também deficitada conta bancária é que o dinheiro da Europa nunca foi parar.

tive o azar de ter um acidente no olho esquerdo, mas nem isso me faz olhar mais à direita porque o outro tem uma catarata que quase o cega já. o tempo do quase? ou vou a nado para Cuba ou cega mesmo.

isto para dizer que pela primeira vez usei o meu direito aos hospitais civis. urgência de oftalmologia. se não fossem as dores, ia a sorrir porque ia encontrar médicos competentes e... SIMPLEX.

o 1º médico podia até ser competente mas... estava a pensar numas perdizes em azeite que o esperavam e aos amigos para uma patuscada ao almoço, antes de ir facturar para a clínica privada. paguei dez euros por esse prazer e mais remédios, que me permitiram trabalhar quinze ou mais dias a ganir com dores, até rebentar outra úlcera.

8.30h am. - desta vez foi um médico, ainda não habituado a perdizes, felizmente. olhou. medicou, mandou tapar o olho (tudo o que o outro não fez...). mais dez euros. novos remédios e os outros para a reciclagem...

depois foi só SIMPLEX...

andar cega pelos passeios cheios de automóveis. fazer compras para sobreviver uns dias e ter de pedir no supermercado que me ajudassem, que fossem os meus olhos (eu não tenho família, Senhor Sócrates, não sou rica, tá a ver?...).

10.30h am - fui ao serviço. a esse fui lá pelo tacto. mais de vinte anos a viver ali. mas convinha que me vissem, não fossem pensar que era ronha. instalou-se de novo na nossa sociedade a desconfiança geral. obrigada, nosso Primeiro.

a seguir foi mesmo SIMPLEZ. caramba, até que enfim ia conhecer o tipo!

a baixa era necessária, que com os olhos tapados pode-se até votar mas, ainda ninguém computa e a ordem era penumbra total.

- volte cá às 2.30h (pm) para marcar consulta. para baixa tem de ser com o médico de família.

já a tremer de dor apontei para o olho, ao autómato falante.

- vá ali ao balcão pode ser se elas...

SIMPLEX. fui.

- ah, o seu médico hoje está no complementar. venha cá às 3h da tarde e tente falar com ele. mas venha mais cedo a ver se o apanha antes de começar as consultas. ele tem de autorizar por escrito.

- obrigada - respondi porque fui educada assim.

cheguei a casa onde a cadela esperava uma carícia e eu nem a via. atirei-me para a cama a soluçar. de dor. de solidão e de SIMPLEX.

às 4 horas da tarde tinha a baixa na mão. o médico, pelo menos, foi decente e desceu para tratar ele da autorização, sem eu ter de subir e descer mais duas vezes do r/c ao segundo andar e vice versa.

agora era ir de novo à farmácia. atravessar as ruas pejadas de carros (mande abrir mais pontes sábio Sócrates!), encontrar o poste de correio para mandar o papel da baixa ou, nem um chavo, já sem ver nada e esperar que um táxi me visse a mim através dos carros mal estacionados, sem me passar por cima.

consegui. SIMPLEX!

o código de conducta? deduzam o que quiserem.

ainda liguei para o serviço a dar a data da baixa.

- melhoras. vamos precisar do papel...

- pois...

caro Sócrates, o segundo, que o Primeiro foi sábio de facto. assim não. e esta é só uma de muitas que, por estar a ditar, não posso dar-me ao luxo de abusar.

em si não voto MESMO. eu e muitos. leve o SIMPLEX para casa e volte a ser engenheiro. quem sabe nisso é bom?...

eu, nem que seja para não me abster. voto até no Jardim quer seja candidato ou não. pelo menos diz asneiras e faz rir.

Senhor Sócrates, mais deprimente que a sua governação só me lembro do antigamente. e outra vez o mesmo, NÃO!

sempre a considerá-lo.

madalena



PS _ SIMPLEZ II _ a receita de perdizes em azeite



imaginem só, não havia o jovem médico de trocar os meus sofridos olhos por isto?


__________

leitura do dia:

Poema enjoadinho

03/05/08

leitura da noite

image by didierpagan



Se te queres matar


Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...

Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo polícromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...

E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...

A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...

Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;

Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.

Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?

Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem.
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?

Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...




Álvaro de Campos

27/04/08

Enquanto a Barca não vem...

photo by Eric Hamilton



caiu ____ a última gota

não há espanto nem revolta

caiu ____ no dorso do tempo

com o silêncio como escolta



nada ____ consigo o prodígio

de ter o cérebro vazio

ter mais ____ nada ____ para dizer

aspiração ____ absoluto

descanso mais que merecido


uma palavra ao ouvido

de quem passar por aqui


- Enquanto a Barca não vem

façam Amor ___ sejam Paz

incomodem toda a gente

destronem a hipocrizia

derramem tanta ____ alegria

como dor ____ no rio corrente

esse ____ o que vai dar ao mar.



única urgência

- a mesma fúria ____ boa ____ Adolescente!

no amar ____ e no lutar.





Madalena Pestana

no canto do medo. canto.

Madalena Pestana no espectáculo "Nós Não Estamos Algures"


ofereço-me. e ofereço-me sempre alguns minutos de medo. como em menina

hoje. como aos vinte anos.

três minutos. não mais. o resto é o enfrentar o Coliseu e ver chegar as feras.

vêm de dentro

as feras. do Coliseu a que nos expomos. seremos nós quem ruge

bem no fundo

ancestrais temores a coisas novas. a desafios maiores?


não sei. não me apetece pensar. hoje menos que ontem. bem menos que amanhã

desejo meu!

enjoei de pensar. já lá vão tantos anos desde que comecei. como terá acontecido?

coisas de solidão

os ocupados de gente precisam pensar pouco. há o ruído em volta

a cabeça enche fácil

e o pensar fica com pouco espaço. para dançar palavras. como sangue a ferver


photo by yannic schon


quero é deixar que o sangue ferva

como com vinte anos magros e atentos que tive e tenho

(mais quantos outros mais?)

todo o tempo era meu. e eu a pensar. a amar e a pensar. a desejar e a pensar


basta!

vou amar. desejar. ferver sangue como animal que sou e deixar que outros pensem

nada serviu de nada.

o que pensei passou. já nem eu lembro. não deixou resto ou rasto para seguir.

o que amei é meu.

o que doeu. dói. o que foi riso. ri. as lágrimas não secam. e o sangue. ah, o meu sangue

ainda não coagulou e há-de dançar de roda

uma última dança louca. ao amor louco e vivo. ao calor último. ao motor do viver.

um tango. uma valsa. um outro jogo de entrelaçadas pernas

até amanhecer. até anoitecer. até enlouquecer. até cair de sono

(olhando para o passado. tendo por trás a barca. como amiga fiel.)

ou em intenso espasmo. prazer alucinado. simplesmente. morrer.

26/04/08

livre sou eu

Learning to fly by Foureyes


ninguém me deu

nada.

a liberdade _____ menos _____ que o sonho

mas eu sou _____ livre

como uma criança

que nem imagina _____ enquanto corre

que se morre



__________


e só.

24/04/08

que raiva deu às gentes por causa do encarnado!

A rose per the 25th April in Portugal

foto de madalena pestana


vinte cinco de Abril. assim. por extenso. quem sabe bem o que foi? o porque foi?

nem os novos governantes viveram o "antes disso". terão lido na história. na escola (terão lido?). contaram-lhes os pais. (que pais contaram e o quê?)

vinte cinco de Abril de mil novecentos e setenta e quatro.

parem com a desculpa. é pouco tempo. não é não. é mais do que uma geração. toca a acordar!

digo isto para quem? para ninguém. fechei os comentários. assim ninguém terá medo de concordar ou discordar. porque, passados estes anos, sinto. no ar. de novo. o medo!

o medo no truque da avaliação na função pública tanto quanto nas empresas privadas.

agora chegou o despedimento por INADAPTAÇÃO.

porra, senhores ministros! quem se tem aguentado tanto tempo a adaptar-se a viver cercado a incompetência e corrupção não se adapta ao trabalho, se varia a função?

haja Deus e paciência! Deus tem de haver para este absurdo ter algum sentido, já a paciência... como vai rareando!

lembro hoje, Amigo. o teu telefonema que dizia só. ao acordar-me: " Irmã! já há tropas nas ruas! não me deixam passar. têm de ser das Nossas!"

meia dúzia de dias depois disso morreste. acidente. estúpido como todos. mas morreste feliz!

se visses o que fizeram dessa Tua/Nossa Esperança... estarias como eu hoje.

triste ou... à espera do Verdadeiro Dia!

porque estou cega demais para escrever

O-Mar-por-Horizonte foto de Olga Gouveia


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Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

Ah, quem sabe, quem sabe,
Se não parti outrora, antes de mim,
Dum cais; se não deixei, navio ao sol
Oblíquo da madrugada,
Uma outra espécie de porto?
Quem sabe se não deixei, antes de a hora
Do mundo exterior como eu o vejo
Raiar-se para mim,
Um grande cais cheio de pouca gente,
Duma grande cidade meio-desperta,
Duma enorme cidade comercial, crescida, apopléctica,
Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?

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Álvaro de Campos

22/04/08

dia da Terra. o hacker e... Sócrates II

Grey-Wolf-2 djs photography


dia da Terra. pois. eu devia escrever coisas interessantes mas ando um bocado des-interessada. de quase tudo. excepto do meu hacker. desculpem mas é assim mesmo.

bem. a Terra existe e graças à natureza vai continuar a existir. para além do homem e apesar do homem. nem que sobrem só as resistentes à bomba atómica. as anti-americanas - baratas. (em itálico porque ver-se livre das baratas sai... caro. para quem ganha o que eu ganho. nem para matar baratas...)

mas isto a propósito da Terra. e do Sócrates. o segundo. sobre o segundo não há nada a dizer. chefe de um partido único. culpa do pc que nunca saiu do passado. do seu partido parceiro que... se partiu por inteiro.

falava pois da Terra e do seu dia. o Sócrates já começou qual o seu homónimo sábio. a mudar. devagar. até às eleições. as leis do :

laboro logo existo! - é o lema do homem. já se labora ou não... a futura história a decorar. bem paga e mal contada. o dirá. (que me perdoe o excelente professor de história que um dia tive. mas. decorar aquilo. não é coisa de gente.)

falava pois do dia da Terra. ou do hacker que assentou praça no meu computador como um namorado renitente. ou de Sócrates. o segundo.

o primeiro sempre foi menos mau. "morrer sim mas na esgalha!" - disse um dia. "venha lá a cicuta, seus filhos de uma... senhora séria (que miséria!) já que é moda da casa. exilar-me. quase morto? isso, a ser bom. a ser. é para o meu sucessor." e lá vai disto. comeu anzol e isco. e... não chateou mais ninguém. parecia ser o caso.

ao acaso: Sócrates o segundo. a Terra e o meu hacker (já começo a amá-lo. a mulher ou homem que se cuide!)

____---____

a Terra? a Terra. minha única guerra! é só amá-la. já que vamos tarde demais para salvá-la.

19/04/08

ar

A hand full of nothing

"uma mão cheia de nada" foto de madalena pestana


numa só mão. a minha mão ou outra. fechada. a vida cabe. toda ela.

a vida cabe. a minha. vida nada. vida vazio. espaço. ar. numa só mão.

o voo de pássaro que sonhei ser morreu. as flores que quis nascer

floriram. longe a mim.

o rio que navegava. secou. por baixo dos meus olhos. tanto era o sal

que deles se entornava.



a vida. a minha vida. hoje. cabe numa só mão. num só punho. cerrado

de quem não quer perder o pouco que sobrou. ar. nada. tudo. ar

que por ser ainda respirável. há-de fugir daqui. da minha mão. infértil.

e ir juntar-se ao vento. ser útil. bem distante. fora de mim. do nada.

ser vida. ar salvação. em qualquer uma boca.

17/04/08

caminhos _____ difíceis

the difficult ways where I look for you
foto de madalena pestana


corro. subo. desço.

assalto

todos os caminhos _____ difíceis _____ da cidade

revolvo. destapo. remexo.

recantos

impossíveis de ver a olhos _____ desabituados _____ de sofrer

canso. paro. sento.

fumo

o cigarro apagado do _____ impossível encontro _____de mãos

minto-me. acredito-me. finjo-me.

viva

pronta para a caminhada _____ sem fim _____ de procurar-te

manhã. meio-dia. noite.

madrugada

infinda. urde este desencontro _____ organizado _____ por quem?

canso. revolvo. vivo.

de representar o papel de _____ peregrina do frio _____ do desamor.


sei. sabia. saberei.

viver de

por todos os caminhos _____ difíceis da cidade _____ continuar

a infrutífera busca.


que será de ti. de mim. de nós. amor

se por um capricho _____ impossível _____ do destino

te encontrar

uma vez.

nos caminhos _____ difíceis _____ da cidade?

13/04/08

que sorte. trabalho (?) .



amanhã é dia de trabalho. que sorte! que sorte ter emprego nesta espécie de país periférico à europa dos negócios. da união. (da europa éramos nós. há séculos) que sorte, dizia. pois, dizia mas o que sinto é que vou entrar num espaço de vazio para a minha cabeça. o prelúdio ao tio alzheimer, por entrar num dia, mais um, sem nada que fazer.

nunca fui muito arrumada. confesso. gosto mais de escrever. fotografar. ouvir música. voltar a ler quando o estado a que as coisas chegaram, me der vaga para operar as cataratas. com sorte não cego antes. que sorte!

por não ser muito dada a arrumações, as prateleiras nunca foram a minha forma particular de ocupar o dia. mas amanhã é dia de trabalho. eu sei que não sou nova. as prateleiras laborais estão cheias de gente como eu. à espera. à espera que o governo ganhe de novo as eleições para poder continuar a mudar as leis e chutar os velhos para a rua. sem indemnizações.

eu sei. sou velha mas não burra. os velhos sabem coisas que os novos ainda nem imaginam. entre elas a do direito ao trabalho. não ao emprego. só.

mas que sorte. ainda tenho emprego!

por quanto tempo? não sei. melhor é nem pensar. afinal eu já só espero a Barca. a escada para o cais sei eu descer sozinha. não precisam mesmo de empurrar.

se a Barca se atrasar e antes que o alzheimer me ataque por culpa de cérebro parado dia após dia, vou eu buscar o primeiro barco que encontrar e solto amarras. de vez. de vez. que sorte!

11/04/08

intelecto líquido

foto de madalena pestana


escrevo-te na água. escrevo com os olhos. com água

na água

escrevo meu amigo. não escrevo. dissolvo

eu não sei escrever. falo. com os olhos

pousados no chão. na água. nas pedras

caíram-me pedras-lágrima. dos olhos


escrevo-te na água. no brilho. no chão

que piso a seguir.

molho os pés na escrita que sempre me falha

encharcada em letras _____ água dos meus olhos

eu. intelecto líquido

eu. muda. eu. sentir de escrita vazia. faço-me poema

escrevo-te na água


escrevo-me para ti. na água. na água.


lágrima. palavra. morro-me. no chão.



10/04/08

Meu Vento!

image by Giacomo Sardi


que me trazem as palavras

brazas


que o cérebro ateia?


que vida ainda me cabe

que me chegue


para viver sem Rei nem Lei?


não há Barca para o inferno

nenhuma outra para o céu


há um segredo. um amor


coberto de leve véu

que tu conheces e eu sei



neste ____ tão breve ____ acabar

não há timoneiro de Barca


não há chefe que comande


o mundo ____em caos ____ tão caído



há este amor ____ já cansado


de não estar vivo nem morto

só parado _____como a Barca


que vai a lado nenhum


e há-de chegar_____ pois que venha!


estou rolada como um cardo _____ que nada

em deserto _____ nú




rolo. rolo. rolo. rolo.


que raio de vento és tu?!


04/04/08

saciar ______ nada

image by Angelicatas



fui à rua



bebi vento




engoli toda a poeira que circulava no ar




tive esperança





(num momento patético e desolado)



de que o rodopio trouxesse um aroma




breve ______ a ti





nada ______ pó ______ ______ sem mais nada




a não ser esta imparada saudade imensa



de ti ______ em mim




(saudade da fantasia. do nada que há a lembrar...)





tenho a ânsia ______ o intento ______ vem no vento ______


em vez do vento




tens ______ um corpo




a saciar.

31/03/08

coisas de mães

image by Konrad Ciok


com as mãos ____ aquelas mãos ____ vazias sempre

faz com a Terra um acordo ____ de mães ____ desesperadas

quando a chuva cair____ aqui ou no deserto

no inferno que seja____ irá buscá-la

com as mãos ____ as mãos em concha ____ ciosa. protectora

a mãe das mãos vazias ____ encherá de água

fértil. transparente ____ as mãos de mãe

e entregará aos rios____ todas as gotas____ nada entornará

para que encham o mar

o imenso mar ____ que em ondas ____ lhe aceitará ____em troca


a infindável mágoa ____carregada ____nas mãos

vazias ____como a morte.


30/03/08

no canto. conto-me.

Blue Nude by Picasso


no canto.

no canto conto os dias tristes e os outros. conto-os em número.

conto-os a mim. no canto.

é o canto de não cantar. este meu canto.

é o canto de fazer as contas com a vida antes que a barca venha.

feitas as contas, posso vestir-me de veludo encarnado para a viagem.


mas há ainda tantas palavras a usar que nem entendo. antes de partir

tristeza. por exemplo. é uma delas.

a própria palavra. pesa. pesa como carregar um morto aos ombros

deve pesar.

estar triste é estar nua e só. num canto. contando a própria vida

a ninguém.


nem a fome é mais triste. a fome traz a morte mais depressa. alivia o penar.

estar só. num canto, a contar a si mesma o próprio conto. o por cantar

é estar na barca já

sem o saber. só por não ter ouvido. na água. as pás remar.

28/03/08

hieroglifos

image by Brad Carlile


passadas muitas vidas vieram os estrangeiros visitar-me

leram os hieroglifos que deixei _____ nas pedras

pesquisaram _____ violaram verdades _____

com a pequena mentira como engodo _____ nunca lidas

fizeram_____ longa _____ história de mim

de ti também _____ a história ficou feita


__ **__


acabada a leitura das pedras _____ partiram _____ muito sábios

sem ter sequer roçado

conhecer

o mistério _____ do saber _____ dos nossos lábios.

popular-mente

at Langhans Galerie


o bom de escrever agora

sobretudo se é em verso

é ninguém ler o que escreves

ou então ler o reverso.

26/03/08

... nas tuas costas

image by Dr. Feng Jiang


aos olhos da imaginação _________ dessa _________ a sobrevivente

desesperada amiga que sobrou _________ à normal _________ debandada

das aves sem asas e de arribação _________ velozes _________ que enxameiam

o viver descuidado até a sorte _________ virar _________ nos esquecer o todo



a esse olhar moldo uma montanha _________ de vértebras nuas _________ e tacteio-a

tacteio-te com dedos de pianista _________ experiente _________ componho (te)

melodias vibrantes _________ vendavais _________ arrepios de pele e carne viva



imaginado o corpo sobra a paz _________ pausa. cansaço _________ de quem sentiu

o entranhado desejo satisfeito _________ à tua revelia _________ e renovado

ao ver nas tuas costas a montanha _________ solo erguido _________ vertebrada

onde o meu rio feito de camuflado amor


já corre e se despenha


24/03/08

tu berço

micul mare by iacobmishu


o livro de bolso que é a minha vida

bem que cabe na tua

e é sem saber que lês

a minha essência.



___________



tão poucos se deram conta de que sou


também palavra que quer uma terra

onde cair e ser fecunda


palavra alma em primavera aberta



____________


no colo do livro que és e eu não li mais que um terço


embalo a vida. vivo sonhos



de amor a ritmo de berço.


22/03/08

sopro vida

Of Knives and Paper by kevissimo


sopra meu vento ---- amor ---- ao meu ouvido


cerca-me o pescoço duma ---- serpente ---- amante


sibilante


que me faça tremer e ---- oscilar ---- perder no



espaço


que medeia entre o ---- odor ---- de ti no meu


pescoço

e o beijo que desejo



e tu ---- inventarás ---- num sopro criativo



sopra. amor. a palavra. ao meu ouvido


e em ---- enrolo ---- de cobra que volteia


deixa depois de ---- verdadeiro ---- amor



a minha boca cheia.



21/03/08

o sonho

image by Scraps


ontem tinha pensado escrever sobre amor. o meu amor possível. inventado.

mas a cabeça doía mais que o pensamento e fui dormir. trazia na memória um olhar que não parecera ver-me. nem sequer sabia que o trazia. as coisas que se carregam para casa sem saber!

pior, pior foi o sonho depois.

- no emprego, alguém com poder para isso e muito mais, avisava-me, olhando-me como quem não me vê, que já não precisavam de mim. assim a frio e pronto. rápido como os sonhos são. segurei uma tampa de caixa de papelão. coloquei por cima as minhas plantas e saí a informar não me lembro quem. ou lembrarei?

voltei ao local de trabalho que por vinte anos fora o meu. ia saber de mais. do como. do porquê. mas a secretária já fora trocada. esperavam ainda quem a ia ocupar e... não me viam. ninguém sequer olhava na minha direcção.-

nunca me senti tão número como neste sonho. um número apagado. um número para engrossar, e ainda assim pouco, uma futura estatística qualquer.

a minha cadela foi acordar-me. entendi que era sonho. era sonho mas até quando o era?

assim deixei o texto de amor inventado e parti na direcção da barca que o sonho parece anunciar.

não a avisto mas sei que não demora. é mais de indiderença que de doença que se morre. sei o que digo. antes o não soubesse.

não tenho pena de partir. não gosto é de esperar.

hoje não vejo telejornais. falam de desemprego. não sei é como apagar da memória aquele olhar.

18/03/08

o homem que veio do passado

photo by Aline Smithson

o homem chegou. trazia menos sonhos no olhar grisalho. sorria. sabe sorrir e é límpido ainda.

pessoa que enfrentou e ouviu muitas marés baterem nas amuradas da vida. com a sensação de que lhe cabia a ele orientar o povo para fora do afogamento. também foi esse o seu destino. cumpriu-o.

o homem que veio do passado trouxe no olhar a nostalgia de acreditar. que muitos temos.

Memory of Water by ericbb

trouxe também memórias do Mar onde nadaste, meu amor de sempre a sempre. coisas pouco sabidas. coisas de que me orgulho. sabia de ti e da tua maldição de teres nascido português.

amei naquela hora o homem quase estranho, não fora ele um nome doce de ouvir na tua boca. amei-o como se o tivesses enviado.

e não terás? que sabemos nós do para lá disto a não ser que "anda tudo ligado"*?

quero que o homem volte. que me conte de ti antes de mim. também é para isso que servem os amigos - para nos manter vivos depois do tal adeus.




* in Square Tolstoi de Nuno Bragança.

17/03/08

devia sentir-velha

River meets the Sea by Cara Weston


não devia ser assim. já não devia.

devia ser eu uma calma lagoa

onde se espelha uma árvore antes de secar

tinha de ser mais velha no sentir

de ter matado as células de vibrar

para ao passar por ti ou ao ouvir

a voz que me sacode como vime

não estremecer em convulsões de rio

numa ânsia sem nome de se unir ao mar



devia mas não quero ou não sei ou não posso

e o meu corpo, se dependesse dele

cairia no teu como pedra num poço

numa entrega bem para lá da pele!

16/03/08

seara-terra

photo by Snemann


penso. o fim da Terra não vai ser o deserto.

vai ser o avassalador beijo do mar

a cobri-la toda. a ondear. em volúpia de orgasmo



seria bom de ver a pleno tempo

tanto como o é na primavera a ondulação

de seara verde ao vento.


15/03/08

mentira. a primeira.

isto vai ser mesmo um diário. disse ontem ou coisa parecida. que mentira!

eu não sou de diários. nunca fui. tive vários. davam-me isso para eu poder escrever com organização. mas eu não sou assim. a minha vida é um caos bem semelhante ao mundo aonde nasci. organizar o quê?


foto by Kevin Houlihan

escrevo hoje pelo acaso estranho de ter despertado de um sonho contigo. saí dele apressada mal tu entraste em cena.

envelheceste. às vezes penso que toda a gente está como a conheci, excepto eu. que só em mim o tempo deixou marcas. não. envelhecemos todos. corremos todos, sem vontade, para o fim. desde nascidos.

mas fiquei a pensar porquê, ao fim de tantos anos, me invadias a noite (já manhã). mais no porquê de preferir acordar de ti, que foste um dos meus três amores.


Copyright Niram Art Magazine

foi rápido o saber. revisitou-me a mágoa de um verão em que descobri que te sonhara. que não eras mais que uma invenção minha. vontade de que fosses parecido, pelo menos, ao meu primeiro amor que se partira. desempenhaste tão bem esse papel.

até ao dia em que enfrentei o horror numa só hora. vindo de ti. que eu procurara. pela primeira vez aterrada na probabildade (imaginada. em pavor.) de voltar a ser mãe.

ouvi-te em silêncio. quando terminaste e eu saí, perdera vinte anos de afecto. vinte anos de ilusão. envelhecera cem.

e foi quase sempre assim a minha vida. quantos anos terei eu agora?

o teu são paulo que os conte quando chegar o tempo. eu com este ordenado e estes impostos, só sei fazer contas de diminuir.